Um Estudo do Sobrenatural - Parte 2: O Caso das Irmãs Fox e as Bruxas de Salem

Publicado 1 Janeiro, 2015 por C. Aguiar   


No primeiro capítulo do estudo do sobrenatural, conceituamos as principais “entidades” e contextos que compõem o vasto universo do fantástico. Adentramos então na segunda etapa desta análise: serão estudados casos reais de eventos supostamente sobrenaturais ao longo da história, buscando as possíveis causas-raízes do problema. O objetivo final é tentar demonstrar que por trás do misticismo, há um evento lógico e que está dentro das leis da natureza. Conseguiremos, pois, com estes estudos, verificar se esta conclusão é verossímil?

A cada artigo, traremos 2 casos. Iniciemos pois com duas histórias que aconteceram nos Estados Unidos e que ganharam fama mundial: o caso das irmãs Fox, e o famoso julgamento das bruxas de Salem.

O caso das irmãs Fox

Ano: 1848

Local: Hydesville, Estado de Nova York

Natureza do fenômeno: contato com entidade espiritual

Contexto: Sir Arthur Connan Doyle, em seu livro História do Espiritualismo, descreve que nas noites do final de Março de 1848, barulhos estranhos estavam sendo ouvidos em um determinado ponto da residência dos Fox. Embora tenham procurado por todos os pontos da casa, temendo a possibilidade de algum ladrão estar na propriedade, nada foi encontrado. Os eventos continuaram acontecendo noite após noite, até que a menor das irmãs decidiu interrogar o que quer que estivesse causando os ruídos, pedindo que a entidade repetisse a mesma quantidade de batidas produzidas pela menina. Para espanto geral, ela obteve resposta com exatidão.

Pensando então em testar a veracidade do que estavam presenciando, a mãe das crianças pediu que, através de batidas, a entidade ali presente indicasse a idade de cada um de seus filhos. O número de batidas indicaria o número de anos de cada criança. Novamente, a resposta foi correta. Deu-se então um verdadeiro interrogatório à entidade manifestante: convencionando um certo número de pancadas à uma letra do alfabeto, as respostas dadas pelo ser as perguntas feitas pela Sra. Fox mostraram um resultado estarrecedor: a entidade se manifestou como o espirito de um mascate que havia sido assassinado naquela residência anos antes de a família ali habitar.

Eventos semelhantes em localidades próximas começaram então a acontecer, e as irmãs Fox passaram a apresentar em públicos seus supostos dons. Até então que, após desentendimentos familiares, duas das irmãs denunciaram a mais velha, delatando todos os eventos como fraude. Há a possibilidade de tal confissão ter sido feita mediante pagamento por um jornalista sensacionalista. Tanto que, anos depois, as irmãs fizeram uma “retratação da retratação”, dizendo que se arrependiam do que disseram contra o espiritualismo.

Em 1904, anos após a morte das irmãs, uma escavação na antiga residência dos Fox encontrou, exatamente no ponto indicado pelo espírito, um esqueleto humano e ferramentas de mascate enterradas. Tais eventos constituíram uma das bases da doutrina espírita.

Estudo: O que mais impressiona neste caso é que as irmãs se submeteram a várias provas públicas de veracidade, sendo avaliadas por profissionais respeitados, e nada indicou uma fraude. O que pesa contra: a única base que temos para analisar a tiptologia (comunicação mediúnica por base de batidas) ocorrida na residência dos Fox é o relato da própria família, e, conforme explicado na primeira parte destes estudos, é uma tendência o ser humano acreditar somente no que quer acreditar, e mesmo ‘auto-sugerir’ sua mente com eventos que de fato não ocorreram.

O caso chamou muito a atenção do educador francês Alan Kardec, codificador da doutrina espírita, que o utilizou como referência em seus estudos. Os postulados do professor no Livro dos Médiuns explicam tranquilamente os acontecimentos de Hydesville: dentre as formas de manifestação espiritual, as batidas constituem evento mais elementar. As irmãs Fox, portadoras de mediunidade caracterizada como de efeitos físicos, simplesmente foram agentes que possibilitaram ao espírito se manifestar. Havendo grande capacidade de comunicação bastante evidenciada nas meninas, temos também a explicação para o sucesso nos testes a que elas foram submetidas: os fenômenos se repetiam em diferentes condições porque as irmãs ainda atuavam como “intermediarias” entre os espíritos e o mundo físico.

A doutrina de Kardec se notabilizou por aplicar rígida lógica e senso crítico nas análises dos fenômenos supostamente de natureza espírita. Para que o caso tenha sido aceito como real, foi submetido a exames sérios e rígidos. A conclusão que pode-se obter deste caso é: ele é explicável como real, desde que você aceite que sua explicação tenha uma origem também em um ‘universo’ que não é material. Os eventos desrespeitam as leis da natureza? Não, se aceitarmos a explicação de Kardec para as manifestações de efeitos físicos. Se prezarmos pela lógica materialista, não há forma de que tal evento se explique, senão por uma brincadeira infantil de mal gosto cujas crianças não souberam conter nem colocar fim. Ou mesmo uma farsa de família: talvez os Fox soubessem do assassinato e local de enterro do mascate, e orquestraram a ampla divulgação dos eventos. A pergunta seguinte é: como os fenômenos se multiplicaram, e como as Fox passaram aos testes a que foram submetidas?

Da primeira pergunta, histeria coletiva pode ser uma resposta. Desejo de ter a mesma atenção da família Fox também é uma possibilidade. Para a segunda pergunta, a resposta pode vir como novos questionamentos: quem assistiu a tais testes, para dar um testemunho verossímil? Era realmente alguém livre de qualquer influência de julgamento? Quanto aos homens que aplicaram tais testes, embora pessoas respeitadas, pode-se afirmar a respeito de sua não inclinação para ocorrência de um dado resultado? Isto não é respondido com clareza pela história.

Nossa conclusão: A doutrina espírita, ainda que fora do escopo materialista (que não deixa espaço para o inverossímil), oferece uma explicação aceitável para os eventos. É difícil considerar que a família Fox tenha ‘criado’ tal história, visto que eram pessoas humildes e sem tanta instrução, e mesmo o pai da família era pastor de uma igreja evangélica local. Alguém que certamente se opunha ao que o Espiritismo professa. Mesmo que as crianças tivessem inventado uma série de batidas, fingindo ser um caso espiritual somente para desafiar o pai, tal mentira não teria sido levada adiante com o consentimento de um religioso convicto. Não parece ser ilógico aceitar que um caso espiritual seja explicado por um contexto também espiritual, uma vez que este contexto tem uma base inteligente e mesmo dotada nos rigores da investigação científica. A situação seria diferente se a explicação dada pelo contexto espiritual não tivesse fundamento em algo minimamente verossímil, como se a justificativa para os fatos fosse algo simplesmente miraculoso, um mistério da fé.

As Bruxas de Salem

Ano: 1692

Local: Salem, Estado de Massachusetts

Natureza do fenômeno: Bruxaria e possessão

Contexto: No final do século XVII, a filha do reverendo local, uma garotinha de 9 anos de idade, começou a apresentar estranhos sintomas: espasmos (a vítima rolava no chão, se contorcia, rangia os dentes e até mesmo latia), longo tempo de paralisia (como se estivesse petrificada) e se negava a comer. O pai da criança mandou então chamar o único médico disponível naquela região. Para desespero da família, o diagnóstico não era nada consolador: do ponto de vista clínico não havia nada a ser feito, pois se tratava de um caso de feitiçaria contra a menina. Restava ao pai apenas rezar pela cura.

A notícia então se espalhou naquele vilarejo cristão extremamente conservador e apegado a tradições religiosas medievais. O boato que surgiu com o diagnóstico do velho médico era de que o diabo resolvera habitar naquela localidade. A história começou a ganhar mais força quando outras meninas começaram a apresentar os mesmos sintomas da filha do pastor, inclusive sua sobrinha. Foi então que, pensando em salvar seu rebanho, o reverendo toma uma decisão drástica: chamar um exorcista para resolver a questão.

O escolhido foi o inquisidor Cotton Matther, crente ferrenho na teoria das bruxas e fiel seguidor do Malleus Maleficarum (o famoso Martelo das Bruxas, manual escrito por frades dominicanos, porém incluso pela igreja católica no Index Prohibitorum). Durante as investigações, as crianças confessaram: acompanharam uma série de rituais de Vodu executados por uma escrava de nome Tituba. Não havia então necessidade de maiores provas: deveria ser instaurado um tribunal. Naquele tempo, em uma sociedade extremamente puritana, a prática de rituais a margem dos mandamentos bíblicos era passível de pena de morte por enforcamento. E, agravante, em uma sociedade colonial recém estabelecida, a única lei existente ainda era a da religiosidade (bem ao caráter da inquisição europeia).

Iniciada a sessão (presidida por Samuel Sewall) em um tribunal lotado, os depoimentos das bruxas de Salem foram surpreendentes: começaram uma série de acusações indistintas aos habitantes ali presentes, acusando-os de praticar bruxaria. A própria Tituba também confessou a prática de magia, pediu remissão dos pecados e encorajou o tribunal ali presente a instaurar uma caçada às bruxas de Salem. Perante a presença de muitos dos acusados, as meninas ‘sentiam’ mal-estares, calafrios e alegavam ver presenças malignas ao lado dos camponeses réus. Alegavam também que os espíritos dos réus saíam de seus corpos durante a noite para perturbá-las durante o sono. Queixas semelhantes surgiram na comunidade, onde pessoas outrora amigas acusavam-se mutuamente das práticas mais hediondas do ponto de vista religioso.

O resultado de toda esta ação: mais de 300 pessoas foram acusadas de práticas não-religiosas, resultando em 19 enforcamentos, e a matança só terminou quando o governador da colônia ordenou a dissolução do tribunal religioso, com afim de pôr termo aos enforcamentos. Das bruxas de Salem, nenhuma foi condenada, uma vez que alegaram estarem sob ordens do demônio e se arrependeram de suas práticas perante júri.

Nossa conclusão: O fanatismo religioso puritano matou 19 pessoas injustamente. O próprio juiz Samuel Sewall escreveu anos mais tarde que se arrependia daqueles julgamentos e lamentou seu papel nesta história. E de fato, falamos aqui de um julgamento bastante parcial.

Na época, era consenso de que uma das artimanhas do diabo era tentar convencer as pessoas de que não existia nenhum diabo. Somente esta prerrogativa eliminou as possibilidades de defesa de todos os acusados. Se estes admitissem sua culpa, estariam confessando conluio com forças malignas, e sofreriam o resto da vida com o temor das penas futuras. Se não admitissem, eram acusados pelo tribunal de ainda assim estarem sob ordens demoníacas, alegando a não existência de satã. O teatro exercido pelas bruxas de Salem (sim, teatro. Mais adiante explicaremos que muito provavelmente não houve nenhuma possessão em Salem) durante as audiências também teve papel fundamental no desfecho do caso: meninas, tidas como inocentes, nem sequer levantaram as suspeitas dos juízes ali presentes. Qualquer juiz competente deveria investigar também o que motivava as ações das acusadoras.

O motivador de toda esta história, a alegada bruxaria sobre as meninas é injustificável. Antes de pensar que as meninas estavam sob controle de alguma entidade maligna, deve ser levado em consideração que elas participavam de um ritual alegado como magico. Não poderiam elas simplesmente haverem ingerido alguma substancia ou chá alucinógeno, e ficaram sob efeito dele? Tituba certamente conhecia tais substâncias. Em uma sociedade de extremo fanatismo religioso, onde ter desejos sexuais ‘indevidos’ era motivo de pagar penitência para uma adolescente, as meninas simplesmente não ‘liberaram’ seus desejos reprimidos no ritual, e depois ficaram com medo de alegar isto publicamente e serem difamadas? Ou simplesmente, o reverendo local, passando uma vida toda sob pânico de ir para o inferno (como acontece até hoje com muitos ‘religiosos’, que oram não por buscar a Deus, mas por medo de ‘arderem nas chamas eternas’), exagerou ao analisar os fatos?

Como se nota, existem muitas possibilidades reais e racionais que explicam o que aconteceu com as meninas (começando por fingimento delas, com medo da reação da sociedade por participarem de um ritual proibido), antes de se tomar como verdade a ocorrência de uma possessão diabólica. Mas, em um costume que vemos até nos dias atuais em muitas igrejas, a fantasia vira sempre a primeira explicação para tudo (e a lógica é arte do demônio. A mesma prerrogativa já citada, sobre negar um fato se tornar a confirmação de que o mesmo é real). Como muito bem explicado no primeiro artigo desta série, a racionalidade mais simples mostra que não existe diabo. A ‘religiosidade’, a exemplo de como aconteceu milhares de vezes na idade média, assassinou pessoas acreditando estar prestando um serviço a Deus. Se houve algum pecado ou crime em Salem, foi o das bruxas entregarem seus próprios amigos e vizinhos a morte para proteger o que quer que seja que elas sentiram ou fizeram.





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