Arte Chinesa - Conhecendo Um Mundo Muito Mais Antigo do Que o Nosso

Publicado 25 Abril, 2014 por C. Aguiar   


A arte que foi e vem sido produzida ao longo dos séculos no hemisfério ocidental é largamente estudada e amplamente difundida na cultura de todo o globo. Porém, há uma cultura muito mais antiga e certamente tão ou mais profunda do que a do ocidente: a cultura chinesa. A civilização cujas origens como nação remonta há mais de 3000 anos atrás possui uma cultura tão ampla, abrangendo aspectos filosóficos, literários, científicos e artísticos, que pode-se dizer sem sombra de dúvida que traz em seu conjunto um acervo cultural no mesmo nível de conhecimento que a civilização ocidental, em vários países, levou vários séculos para construir. O Templo de Atena tem prazer em apresentar uma série de artigos ao longo do mês de Abril e Maio mostrando um pouco deste interessante universo, começando pelas obras de arte da China. Deixe seu comentário, participe desta prazerosa viagem.

Para entender o desenvolvimento da arte na história chinesa, é preciso ter em mente que várias distinções aconteceram ao longo das diversas dinastias imperiais que dominaram o país na antiguidade. Vale postular também que aqui nos deteremos nos aspectos de pintura, não adentrando em outras formas artísticas como a cerâmica, ou arquitetura (porém podemos tratar destes assuntos em artigos posteriores, caso o leitor deseje).

Podemos traçar nossa viagem pela seguinte rota: procuremos entender os métodos e as percepções dos artistas da China antiga, a evolução da pintura na China milenar, e as técnicas aplicadas pelos artistas do antigo império. Por fim, podemos fechar nossa análise falando da pintura atual. Para que você entenda as concepções que os pintores chineses consideravam para conceber uma imagem, podemos traçar um paralelo com a nossa já conhecida pintura ocidental:

Na pintura desenvolvida e consagrada no ocidente, o enfoque maior da relação homem-natureza, em uma relação de senhorio: o homem domina, modifica, constrói sobre a natureza. O destaque é na figura do homem. Esta característica se deve muito à cultura renascentista, onde o homem se colocou como centro após séculos de culto à religião.

Já no oriente, o homem e os seres passam a ser membros deste todo que é a natureza. A composição da imagem vem na harmonia e integração do homem e do seu meio.

Pintura chinesa ( P’u Hsin-yu – dinastia Ch’ing)
Pintura chinesa ( P’u Hsin-yu – dinastia Ch’ing)
Impressão, Nascer do Sol (Claude Monet - 1872)
Impressão, Nascer do Sol (Claude Monet - 1872)

E como o pintor chinês antigo colocava suas abstrações da natureza em imagem? O papel, criação chinesa que viria à mudar a história da humanidade, teve figura chave neste ponto. O site http://artechina.blogspot.com.br/, no acesso de 20/04/14 nos ajuda a entender o processo de materialização das visões do artista da época:

[o papel] Foi usado em diferentes formatos: rolo horizontal, rolo vertical, em forma de leque ou em forma de folha de álbum. A tinta, pigmento preto proveniente da existência de madeiras ou constituído por massa de fuligem vegetal moldava-se em forma de barra. Quando se queria utilizá-la, esfregava-se sobre urna pedra-tinteiro com um pouco de água, até conseguir diluir a tinta na quantidade e grau de concentração desejado. A sua aplicação no papel tinha de ser rápida, instantânea e segura, pois não era possível nenhum retoque, nem correção. Por fim, o pincel era formado por uma leve haste de bambu com uma cerda de pêlo de animal (cabra, coelho, marta, etc.), pontiaguda e mais avultada na parte superior, e podia ter uma grande variedade de formas e tamanhos

NINFA DO RIO LUO – GU KAIZHI, O PAI DA PINTURA CHINESA NINFA DO RIO LUO – GU KAIZHI, O PAI DA PINTURA CHINESA

Outro paralelo que podemos traçar entre a pintura ocidental e a oriental é a respeito da trajetória histórica da pintura. Enquanto que no ocidente a arte se desenvolveu através da evolução de estilos e representatividade (cuja linha do tempo você pode ler na introdução de nossa lista das 30 melhores obras de arte de todos os tempos, a história da arte chinesa pode ser bem melhor descrita se analisada em conjunto com os períodos dinásticos da China Imperial. Aqui podemos destacar 3 passagens principais:

A pintura chinesa teve sua aurora nas pinturas de tecidos de seda e afrescos rudimentares. Mas os grandes destaques eram gravuras em madeira, feitas em relevo. Há um certo ar de mistério sobre estas peças artísticas, pois até hoje somente 7 delas foram encontradas, quando registros históricos mostram uma amplitude muito maior deste tipo de arte na sociedade da época. Aqui vale uma digna nota àquele que é considerado o maior expoente da pintura chinesa: Gu Kaizhi, grande teórico das artes, poeta e calígrafo (a escrita no Mandarim antigo era considerada, e não sem razão, uma arte!). Abaixo, algumas obras do maior pintor oriental antigo: Conselho de Governantas do Palácio das Damas, e Luoshenfu:

Luoshenfu
Luoshenfu
Conselho de Governantas do Palácio das Damas
Conselho de Governantas do Palácio das Damas

Após alguns séculos de melhorias contínuas, porém com temas fundamentados todos sobre a natureza e nobreza (retratando banquetes, por exemplo) durante o período conhecido como dos três reinos a pintura chinesa encontrou renovação com a arte budista (um exemplo está na próxima imagem). Uma outra característica importante é a entrada nas cortes imperiais dos pintores filósofos e intelectuais, que trouxeram importantes contribuições na forma de expressar as imagens nas telas, bem como de interpretação dos quadros produzidos. Tais mudanças de certo modo correspondem ao que na Europa, séculos depois, tivemos com o Renascimento.

Arte Budista
Arte Budista
Arte Budista
Arte Budista

Por fim vale ressaltar o período de 1644-1911, na última das grandes dinastias chinesas antes dos períodos de revolução, onde após séculos mesmo a arte imperial ficou proibida de ser praticada (durante a dinastia Yuan), a arte chinesa atingiu um nível praticamente igualitário às evoluções europeias: a poesia era retratada na pintura, gerando grandes capacidades de abstrações nas imagens. O trabalho do artista Xu Beihong, por exemplo, foi exposto na Europa e teria influenciado diversos pintores especialmente da França.

Arte de Xu Beihong
Arte de Xu Beihong

E a pintura moderna chinesa, como anda? Dos artistas contemporâneos, um grande destaque é Zhang Xiaogang, que montou uma série de “retratos” pintados de diferentes pessoas, porém todas com o mesmo olhar. A ideia do artista, em um trabalho fenomenal de arte atuando como elemento crítico da sociedade, é mostrar que há algo errado, algo anormal nas massas de seu país. Basicamente: tantas pessoas diferentes, vidas diferentes, todas com a mesma expressão. Não deviam, sendo seres individuais e com experiências próprias, terem cada um sua expressão? “Algo” os tornou diferentes do que eram, moldando-os todos iguais. Nisto, é importante mencionar que Zhang é um opositor ao sistema político chinês atual.

Arte chinesa
Arte chinesa
Arte chinesa
Arte chinesa
Arte chinesa
Arte chinesa
Arte chinesa
Arte chinesa

Neste artigo, tivemos uma mostra real de como temos a aprender com uma civilização, um mundo muito mais antigo do que o ocidental. Da próxima vez que você for pesquisar algo sobre artes, quando quiser aprender algo novo sobre este fascinante assunto, não se atenha à arte renascentista europeia. Olhe para a arte chinesa. Você não vai se arrepender.



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