A Arte das Trevas Parte 5 - As pinturas Negras de Francisco de Goya

Publicado 9 Setembro, 2017 por C. Aguiar   


O conceito de ‘trevas’ não remete somente ao mal, ou à escuridão. As trevas também podem ser uma força, um sentimento inerente à natureza humana. Claro, como todo sentimento, não consiste em um estado de espírito permanente. E retratar sentimentos é o objetivo final de uma obra de arte, ainda que tal remeta à uma cena histórica ou a um retrato de algum nobre, por que invariavelmente corresponde à impressão que o artista tem da imagem ou objeto retratado. Sendo assim, podemos concluir que, falar de retratar ‘as trevas’ em si, não necessariamente é estar falando da ausência de luz, ou da representação do mal e suas entidades, mas também, e especialmente, falar das trevas da alma, que é o pior tipo de treva.

A quinta parte da série de artigos sobre as pinturas mais sombrias da história da humanidade retrata uma sequência de quadros do começo do século XIX que, além das imagens representadas, tem no seu autor e no contexto das obras elementos tão impactantes quanto as próprias telas em si: as pinturas negras de Francisco de Goya (1746-1828), pintadas entre 1819 e 1823 e hoje expostas no Museu do Prado em Madrid.

Escolhemos 4 obras principais das 14 da série do pintor espanhol. Porém antes de falar das telas propriamente, faz-se importante conhecer um pouco mais sobre o próprio autor e a forma como ele chegou à esta extraordinária sequência de quadros.

De Goya já apareceu em outros artigos do Templo de Atena. Um de seus quadros mais famosos - Os Fuzilamentos do Três de Maio (1814) – está nas melhores obras de arte de todos os tempos (Aqui – 19ª posição), e um dos quadros que compõe a serie das Pinturas Negras já foi tema da Arte das Trevas – Saturno Devorando Seu Filho – foi analisada aqui. Sendo um pintor Romântico (ok, vamos te ajudar se você não lembra a definição de Romanticismo – dê uma olhada na introdução das melhores obras de arte da história), foi um grande especialista em retratar o caos político e militar de sua época. E as pinturas negras foram inspiradas no caos político e da corte Espanhola à época, e há quem diga que o tom de melancolia que se associa ao pavor transmitido pelas imagens é devido ao estado de doença em que o pintor se encontrava na época.

Fig. 1 - Os Fuzilamentos de 3 de Maio (1814)
Fig. 2 - Saturno Devorando Seu Filho (1823)

Porém Francisco de Goya não viveu somente de pinturas sombrias e melancólicas. O artista trabalhou em imagens sacras (como A Tripla Xeración, finalizada em 1769) e em belos quadros encomendados pela realeza espanhola, como O Parasol. Este último traz um belo jogo de cores e de claro-escuro no posicionamento de sombras.

Uma outra curiosidade sobre as Pinturas Negras propriamente é a respeito do local onde foram feitas. Goya pintou a série de quadros nas paredes de sua casa em Madri (chamada de Quinta del Sordo – a casa do surdo, em tradução literal do espanhol), e isto gerou uma série de controvérsias sobre a real autoria das obras. Como as Pinturas Negras somente foram descobertas 40 anos após a morte do artista, isto abriu margem para que alguns especialistas contemporâneos questionassem se tais telas seriam realmente de Goya, ou de seu filho, que ao repassar a propriedade para o neto contou que as obras seriam do grande mestre para aumentar o valor de venal do terreno. Hoje sabe-se que estas suposições não condizem com a realidade da obra. Porém é fato que as pinturas negras foram feitas em cima de alegres figuras campestres que já estavam na Quinta quando adquirida pelo artista.

Fig. 2 – Esquemático de como as Pinturas Negras foram dispostas nas paredes da Quinta Del Sordo – visual Tour do site www.theartwolf.com (acesso em 30/04/2017 às 21hrs14min.)

Falemos então de 4 pinturas eleitas da série.



El Aquelarre


El Aquelarre

Um grupo de mulheres com vestimentas humildes, todas em posição de respeito e veneração por um líder retratado como se estivesse palestrando, ensinando algo. Sem olhar a tela, qual a primeira imagem que lhe vem em mente? De que contexto você se lembraria? Sem ver a imagem, poderíamos estar descrevendo uma das belas cenas dos evangelhos, vendo Jesus doutrinar seus discípulos. Mas não é o caso. O que poderia ser perfeitamente a imagem do Sermão da Montanha é na verdade um bode antropomorfo aparentando discursar perante um grupo de bruxas. O bode, animal que, de acordo com as tradições religiosas representa o demônio (Baphomet) aparece junto com mulheres que, ao longo de toda idade média, foram caçadas e mortas pela igreja. Teríamos aqui de certo modo alguma crítica ao clero espanhol da época? Assim como em todas as outras pinturas da série, aqui vemos figuras deformadas com expressões de medo, e um fundo de tela coberto com um tom pastel que dá aspecto de desolação à paisagem. Goya aparenta ter certa fascinação pelo profano, visto que em 1798 já havia pintado um quadro homônimo muito parecido. A diferença para o quadro que “decorou sua casa” está na retratação do bode, que aqui aparece de costas e teve sua expressão muito mais detalhada na pintura mais antiga.



La Romería de San Isidro


La Romería de San Isidro

De frente para o EL Aquelarre havia um quadro que, assim como o primeiro, era uma “reedição” feita pelo artista. A Romaria de Santro Isidro já havia sido representada pelo artista em termos bem menos sombrios, em 1788 (La Pradera de San Isidro), onde os nobres descansam ao sabor de uma bela e vastas paisagem. Porém os nobres felizes e formosos deram lugar às figuras deformadas em expressões de sofrimento. A bela paisagem de fundo é substituída pelo tempo sempre encoberto, constante nas pinturas negras. Ao largo do caminho, pessoas e pedras parecem se confundir, tal é a imagem daqueles. A procissão termina se assemelhando mais à uma marcha de sofrimento. Goya descarrega aqui toda a frustração com o que ele sente sobre a sociedade aristocrática. A pergunta principal é: teriam sido as pessoas do quadro mais antigo se tornado os flagelados do segundo quadro (em uma decadência material), ou na visão do artista as faces disformes da segunda tela apenas representam quem realmente são os aristocratas originalmente retratados?



Viejos Comendo Sopa


Viejos Comendo Sopa

Olhando a imagem acima, você a interpretaria como sendo a cena de qual contexto? Duas pessoas pobres, com aparência famélica (tanto que, uma delas, já tem aparência de uma caveira), se alimentando? Seriam homens ou mulheres? Ou, pelas vestimentas do ‘ser’ do lado esquerdo, se tratariam de membros da igreja? A tela abre interpretações sobre quem seriam seus personagens, mas uma coisa é certa: trata-se de uma crítica social ferrenha – seja ela sobre a desigualdade e pobreza no reino da Espanha, ou ainda sobre o clero (que, de cliente do artista, tornou-se um dos seus maiores alvos). Um outro detalhe que chama a atenção nesta tela é a expressão no olhar da pessoa da esquerda. Definitivamente não é uma expressão de sofrimento (embora seu estado corporal mostra uma condição ruim de vida), então o que seria? Esta é, sem dúvidas, uma das obras mais enigmáticas do artista, a que mais deixa espaço para interpretações. Francisco de Goya faz valer aqui a expressão ‘uma imagem vale por mil palavras’.



La Leocadia


La Leocadia

Nesta tela, uma das primeiras que decorou as paredes da Quinta del Sordo, deixamos de tratar dos problemas sociais da Espanha, e passamos a visualizar a tragédia pessoal do artista. Leocadia Weiss era a governanta da Quinta del Sordo, e amante do artista até o final de sua vida, sendo aproximadamente 35 anos mais nova do que ele. Goya retratou sua amada mais de uma vez, mas a tela que compôs a decoração de sua casa foi a mais sombria de todas, pois aqui Leocadia é retratada em roupas de luto e com expressão bastante triste, possivelmente sobre o túmulo do próprio pintor (lembre-se que o artista já estava na casa os 70 anos, e acometido de grave doença). Mais uma marca do melancolismo do artista com relação à sociedade e à própria vida. O mestre espanhol foi casado por anos antes de iniciar sua relação amorosa com Leocadia. A amostra de sua paixão por aquela que cuidou dele e de sua casa por tantos anos é refletida nos quadros que Goya pintou dela em comparação com os de sua falecida esposa: ela aparece mais feliz e em muitos mais quadros do que Josefa Bayeu. Existe mesmo um quadro (retratado abaixo, de 1805) que, oficialmente Goya atribuía como sendo a imagem de sua esposa, mas sobre o qual existe forte controvérsia se já não é um retrato da Sra. Weiss (a esposa do artista ainda era viva nesta data).


Josefa Bayeu ou Leocadia Weiss? (1805 – Francisco de Goya).

Encerramos assim a sequência de artigos sobre “A Arte das Trevas”, esperando que, você fiel leitor do Templo, possa ter expandido seus horizontes sobre as artes, saindo um pouco do viés das belas e celestiais pinturas que são amplamente propagadas nos meios culturais. Lembre-se que a pintura é uma forma de expressão do estado da alma (tal qual a literatura e a música), e o reflexo do sentimento humano nem sempre será belo. Entretanto, precisa ser sempre honesto, ainda que isto se reflita em trevas.



Artigos Relacionados



© 2017 Templo de Atena. Todos os Direitos Reservados