A Arte das Trevas Parte 4 - Os Anjos da Morte

Publicado 15 Janeiro, 2016 por C. Aguiar   


A morte é o elemento mais complexo da vida humana. Ao longo da história, ela representou fascínio, medo, romantismo. Mas, sobretudo, é uma experiência ligada à religiosidade, pois a grande pergunta que sempre moveu o homem foi: “e depois dela, o que virá?”. E a sua resposta é a grande responsável pelo temor aos deuses, senhores das almas dos vivos e dos mortos, que poderia não dignificar o indivíduo à um pós-morte com a paz almejada.

Haveria, em antítese ao Deus da vida e da criação, um ser responsável pela destruição da vida? Ou tudo resume-se ao materialismo, com tudo se encerrando junto com o funcionamento vital do corpo? Ou seria a morte só uma passagem, e os ditos anjos exterminadores seriam somente guias conduzindo almas ao seu lugar de merecimento, pré-determinado com base nas atitudes e no merecimento da pessoa em vida?

No canto mais sombrio de sua mente, provavelmente você já ousou se perguntar: e como será morrer? Palavras não seriam eficazes para ‘externalizar’ tal sensação, inerente àqueles vivendo seus últimos suspiros e não poderiam (salvo o que pregam algumas doutrinas religiosas) descrever as sensações. Pensando nisto, o Templo de Atena separou algumas das obras de arte mais famosas de todos os tempos sobre o tema. Macabra, romântica ou religiosa? Qual a sua visão sobre a morte?



ANJO DA MORTE – ÉMILE JEAN-HORACE VERNET (1851)


ANJO DA MORTE – ÉMILE JEAN-HORACE VERNET (1851)

A obra do francês Émile Jean-Horace Vernet (1789-1863), hoje abrigada no museu grande Museu Hermitage na Rússia traz a vertente romântico-religiosa que a morte inspirou nas pessoas ao longo dos séculos, especialmente na consciência vigente da idade média. O quadro, pintado em óleo sobre a tela e pertencente à corrente artística do Romantismo, traz alegorias clássicas à figura do anjo incumbido por Deus de ceifar vidas: um elemento alado, porém figura enegrecida, em contrate com a imagem divina dos mensageiros do criador maior (a crença em tal criatura ganhou força na idade média, durante o terror vivido pela peste negra) . Um “anti-anjo” levando alguém, enquanto uma pessoa prostrada em seu leito de morte faz orações. As referências à religiosidade estão presentes também na figura do oratório de fundo, transmitindo ao observador da tela o sentimento místico que esta passagem para outro mundo representa, sobretudo na Cristandade. Em alegoria às pinturas mesmo da época da arte gótica e românica, observe também que a alma da pessoa que parte aponta para os céus, a exemplo de inúmeras esculturas e quadros de assunção de Nossa Senhora ou do Menino Jesus ascendendo sempre olhando ou apontado para cima.



ANJO DA MORTE – EVELYN DE MORGAN (1890)


ANJO DA MORTE – EVELYN DE MORGAN (1890)

A tela da artista inglesa Evelyn de Morgan (1855-1919) intitulada O Anjo Da Morte, ainda que não seja o seu trabalho mais famoso, representa um ponto alto na trajetória do grupo inglês Irmandade Pré-Raphaelita, espécie de elite cultural inglesa formada por pintores, poetas, escritores e críticos literários (de certo modo, semelhante á vanguarda artística brasileira formada em 1922 para a semana de arte moderna). Em um primeiro olhar para a tela, a imagem remete muito aos quadros da época renascentista. Mas o diferencial está no contexto apresentado. Evelyn tinha como motivos principais de suas pinturas opostos como metáforas sobre luz e escuridão bem como vida e morte. Aqui, o anjo da morte não representa simplesmente o enviado de Deus para fazer a passagem de uma alma que parte. A criatura alada da escuridão, perante a uma bela mulher não parecer estar presente para levar sua alma. Ao observar o movimento da mão do anjo, talvez haja aqui uma sugestão de repulsa do ser alado.



O PARQUE E O ANJO DA MORTE – GUSTAVE MOREAU (1890)


O PARQUE E O ANJO DA MORTE – GUSTAVE MOREAU (1890)

Gustave Moreau (1826-1898) foi um dos grandes mestres simbolistas da história das artes, e a tela O Parque e o Anjo da Morte, de 1890, um de seus últimos trabalhos, talvez tenha sido o grande ápice de sua carreira, e de todo o abstracionismo Simbolista. Este quadro, um contrassenso em relação à sua carreira marcada pela preferência em retratar cenas bíblicas. Aqui temos o elemento místico do anjo da morte montado em um cavalo levando uma pobre alma enegrecida, um ser alado portando uma espada, e ainda assim possuidor de uma auréola, o que nos leva a crer se tratar de uma criatura divina (ainda que a figura da morte a cavalo nos remeta muito mais a algo diabólico).

O jogo de cores utilizado pelo artista francês é um dos grandes destaques desta tela, que hoje se encontra exposta no museu homônimo ao pintor. Além de um jogo de claro-escuro entre o céu e a terra, há uma mistura de várias tonalidades em toda a tela, desde na alma moribunda sendo carregada pela morte, até o horizonte escuro ao fundo. Tal jogo de cores constrói uma das características mais marcantes da corrente Simbolista, pois a fusão de tons diferentes pode ocultar imagens ou aspectos do quadro, não sendo notados em um primeiro olhar.



O CRISTO MORTO APOIADO POR ANJOS – GIOVANNI BELLINI (1485)


O CRISTO MORTO APOIADO POR ANJOS – GIOVANNI BELLINI (1485)

Concluímos este artigo com uma obra dos maiores mestres Renascentistas de todos os tempos – Giovanni Bellini (1430-1516). O mestre italiano – cuja especialidade foram os temas religiosos – mostra nesta tela que até o Cristo, senhor da vida, foi amparado por um anjo de morte, nas etapas pós-crucificação já bem conhecidas do novo testamento. Bastante latente fica o jogo de claro-escuro empregado pelo artista. Cristo, figura central da obra, encontra-se “iluminado” por cores claras, enquanto o anjo responsável por ampará-lo em sua morte, fica “obscuro”, mantendo-se como personagem secundário. Não é sua figura que importa, mas sim seu papel na cena.

Há quem diga que Bellini, por trás de sua conhecida religiosidade, teria ideias um tanto “profanas”. Retratar Jesus, figura de proa da cristandade e símbolo da vitória da vida sobre a morte, sendo carregado por um anjo, não seria de certo modo uma “afronta” à sua magnificência?



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